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O NASCER DO SOL NA SELVA


XXI Episódio

Cinco da manhã, o serviço despertar sacode-nos o sono e entre preguiças, vamos ter com o Frank, o nosso guia, à porta do Parque. Entramos no jipe e ao ouvir a sua lista de animais “a ver” lembro-me do Tim: “Hoje vamos ver hipopotamos, certamente. Os hipopotamos são os animais mais mortíferos de África. Não são carnívoros, só comem relva, mas atacam sem serem atacados. Se nos pusermos, sem querer, entre eles e o que querem, o que julga ser seu território ou entre eles e o rio, atacam.”, começou por explicar.

O Frank tem 45 anos e, tal como o Tim, nasceu no Zimbabwe. Por lá vivia quando viu as sete quintas da sua família serem ocupadas pelo Governo. A única sobrevivente é uma quinta de vacas gerida pelos seus tios, resquício da família que ficou no país. “No dia em que os meus tios emigrarem para cá, ficámos sem nada.”, disse-nos, triste, mas conformado.

Começamos por ver elefantes, depois o blue wildbest, vários kudus, impalas e, nesta primeira parte, um klipspringer ou, como o nome representa, “salteador de rochas”. E mais elefantes e mais impalas. E impalas e elefantes. E ainda mais elefantes. Elefantes africanos, bem diferentes dos indianos, mais altos, capazes de devastar florestas inteiras. O Frank diz-nos que uma das maiores preocupações ambientais são estes destruidores elefantes. Só no Kruger Parque há cerca de 1200 elefantes. Cada elefante come, por dia, 3500 kg de árvores e bebe 150 litros de água por dia! Aúnica solução em cima da mesa, explica-nos o Frank, é começar a matá-los. Não há outra e pareceu-me sabedor na exclusão das partes. Pelo menos, para ser guia no Kruger precisou de dois anos de estudos, testes escritos, práticos e seis meses de experiência antes de lhe serem exigidas as licenças governamentais e poder finalmente levar até outros o que sabe do reino animal. Tal como o Tim, o Frank deixou no Zimbabwe a esperança de regressar ao seu país. A população, explica-nos, tem cada vez mais fome, as quintas produtoras, como as da sua familia, alimentavam a família proprietária e o país e, ocupadas pelo Governo, deixaram de ser cultivadas, nada é feito delas. A emigração para a África do Sul é um prolema, porque a mão-de-obra barata vinda do Zimbabwe cria desemprego aos sul africanos que, desesperados, reagem violentamente contra os imigrantes em ataques xenófobos, autênticos linchamentos. Mas, a vida em Joannesburgo também está cada vez mais perigosa e no dia em que o Frank teve ladrões a dispararem contra si e contra o seu filho Mathew, simplesmente para assaltar a casa, foi o dia em que decidiu partir novamente, disse-nos.

Hoje entre o nascer e o pôr do sol na selva, garante-nos viver um dia menos selvagem que aquele que encontrou nas cidades por onde passou.

Comentários

obrigada

Obrigada pelo seu comentário. Tenho andado desaparecida, bem sei, mas em breve irei retomar esta viagem em episódios! Espero encontrá-lo por cá. Margarida

a vida na selva

De capulana em capulana, obrigada por mais este texto tão rigorosamente certo. O primeiro que li deu-me a certeza de que a emoção pode renascer fora do lugar que a provocou pela primeira vez. E é o que acontece ao ler o seu estilo tão objectivamente jornalista como emocionalmente puro. No primeiro texto lido revivi emoções vividas no zimbabwe, em Mana pols e no lago Kariba, como no Kruger Park. Neste último que acabo de ler colocou-se-me a dor de ter conhecido um opaís rico e sonhador de futuro risonho para seus filhos e ter assistido ao início do declíno desses sonhos. Nunca mais ouvirei o concerto de insectos que ao final dos dias se inicia `medida que cessa o iniciado na aurora pelos pássaros, nem o rumor devastador dos hipopótamos a «limpar» todo o arbusto que lhe aguce o apetite.
Guardo uma fotografia belíssima do nascer do sol ao mesmo tempo que o hipopótamo entrava nas águas do Zambeze....
O brigada «De capulana em capulana», espero que continue a enriquecer este blog com os seus inspirados textos.
Fernanda Angius

Descrição do Autor

De Capulana em Capulana

"Semanalmente e num estilo ficcionado, os episódios que se seguem contam a história real duma viagem por Moçambique."

Margarida Damião Ferreira nasceu em Lisboa, em 1979.

Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Ciência Política e Relações in­ternacionais pelo Instituto de Estudos Po­líticos da Universidade Católica Portugue­sa, é advogada e escritora.

Co-autora do livro "Litígios e Legitimação – Estado, Sociedade Civil e Direito em S. Tome e Príncipe", publicado pela Almedi­na em 2002, estreou-se como autora com o livro infantil "A Pulga Salta-pocinhas e os Grãos de Areia", publicado pela Editorial Presença em 2004.

Escreve semanalmente artigos de ficção num blogue do semanário Expresso como colaboradora convidada.

O seu curriculum conta ainda com a fre­quência de cursos de Escrita Criativa e Es­crita de Viagens e uma pós-graduação em Jornalismo Judiciário.

Em terras moçambicanas publicou já o artigo “IBO: o Ontem, o Hoje e o Amanhã de uma Ilha Bem Organizada”, Tema de Fundo do jornal “A Verdade” e assina a coluna semanal de ficção “De Capulana à Cintura”.

Ainda em Dezembro deste ano lança o seu primeiro livro de poemas “Assim, como as cerejas...”, editado pela Papiro Editora, em Portugal.