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Ana Cristina Antunes
Sexta-Feira, 24 de Julho de 2009
XXIII Episódio
De volta a Maputo, soube que ia tomar chá com o Mia Couto. Estava incomodado, mas gentilmente ali estava, sentado à mesa do café, à espera de trocar palavras comigo, uma ninguém, uma desconhecida, uma caprichosa invasora da vida literata. E jogámos letras e literatura sobre a mesa. Quis saber de mim, de quem sou, de onde vim, para onde vou, quis saber das minhas leituras e da minha caneta. Quis mostrar-me a arte que vê na escrita, a arte que se manifesta no que não é ganha-pão. E contra os meus sobressaltos de aprendiz, disse-me: No dia em que não tiver medo, morri como escritor. Contou-me que o último livro tinha sido filho da zanga com a mãe literatura. O verdadeiro livro, que não sai aos seus, patinho feio, ovelha negra da família, que duvida e questiona a autoridade da experiência. Contou-me da falta de santidade da sua escrita, do profano, do prático, da negação da escrita sagrada: Eu não preciso de escrever para viver, acho eu. Para viver, preciso de respirar. Contou-me que o que admirava na escrita era a capacidade de ser outro, o poder de ser tantos, de ser os que quiser. Ser algo e alguém bem diferente de mim.
Contou-me que escrevia para dizer algo, que escrevia para contar. Contou-me que queria contar uma história. Quer que lhe conte uma história?, perguntou-me.
De olhos brilhantes, cotovelos em cima da mesa, palma das duas mãos esborrachadas contra as bochechas, acenei a cabeça ao sabor dos meus cinco anos e dispensei-me de responder, mimicada que estava a resposta.
- O Beijo da Palavrinha, é o título do conto!, começou.
E deliciei-me a ouvir aquele conto em palavrinhas.
De Capulana em Capulana
"Semanalmente e num estilo ficcionado, os episódios que se seguem contam a história real duma viagem por Moçambique."
Margarida Damião Ferreira nasceu em Lisboa, em 1979.
Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Ciência Política e Relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, é advogada e escritora.
Co-autora do livro "Litígios e Legitimação – Estado, Sociedade Civil e Direito em S. Tome e Príncipe", publicado pela Almedina em 2002, estreou-se como autora com o livro infantil "A Pulga Salta-pocinhas e os Grãos de Areia", publicado pela Editorial Presença em 2004.
Escreve semanalmente artigos de ficção num blogue do semanário Expresso como colaboradora convidada.
O seu curriculum conta ainda com a frequência de cursos de Escrita Criativa e Escrita de Viagens e uma pós-graduação em Jornalismo Judiciário.
Em terras moçambicanas publicou já o artigo “IBO: o Ontem, o Hoje e o Amanhã de uma Ilha Bem Organizada”, Tema de Fundo do jornal “A Verdade” e assina a coluna semanal de ficção “De Capulana à Cintura”.
Ainda em Dezembro deste ano lança o seu primeiro livro de poemas “Assim, como as cerejas...”, editado pela Papiro Editora, em Portugal.

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Comentários
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